Certo dia, já no fim da primavera, Augusto teve uma
pequena enfermidade. Náusea e dores de cabeça, parecia que os montes ondulavam
e o chão amolecia. Mas o maior sintoma de doença foi o gira-discos que parou de
tocar. É que, para os ouvidos doentes, o som do violino no Capricho número 24 de Paganini tornara-se insuportavelmente
estridente. "Esta zurraria parece uma serração de lenha", pensou ele,
antes de o som cessar. E assim passaram dois dias de silêncio sepulcral. O
estado letárgico de consciência débil que a febre trouxera tornavam os
movimentos pesados e lentos. Já nem vagar havia para cozer o ovo do
pequeno-almoço!
A situação tornava-se insustentável. Augusto
precisava de alguém que viesse cozinhar, guardar e tratar da casa. Alguém que
não vivesse muito longe e que tivesse um mínimo de instrução. Bem, à falta de
melhor, talvez tivesse anotado o número do Café Central na agenda de pele. E
assim era.
- Café Central, bons dias!
- Bom dia, estou a telefonar-lhe para...
- A broa de milho esgotou, não aceitamos encomendas porque o fermento só
chega amanhã!
- Posso falar?
- Diga...
- Eu vivo no caminho das Fragas da Saudade, perto do Souto da Mula...
- Na antiga casa do Doutor Venâncio?
- Precisamente. Sou o novo inquilino.
- Novo quê?
- Morador. O meu nome é Augusto.
- Prazer! Sou o Luciano...
- Gostava de saber se não conhece ninguém disposto a dar alguma ajuda a
cuidar da propriedade, pagarei bem...
- Olhe, tenho aqui um rapaz que é boa rês. Quer falar com ele?
- Pois sim...
- Atão aguarde, já o passo.
-...
- Touxim?
- Hum... Bom dia.
- O senhor arranja trabalho? Olhe que sem mulheire, não há quem me queira!
- O que está para aí a dizer?
- Nada... Quanto é que paga?
- Temos de negociar. Pode estar cá às seis da tarde?
- Pode.
- Boa tarde então. Não se atrase.
A notícia ecoou pelos quatro
cantos da aldeia. A dona Ermelinda ficou orgulhosa com possibilidade de o seu
filho ter um emprego. Até a rádio local, Mula FM, já propagandeava, com pompa e
circunstância, a notícia do dia: o novo posto de trabalho na localidade de Freixial. Mas o senhor
Augusto permanecia impávido e sereno na sua doença, prostrado numa cadeira de baloiço.
Só às seis e cinco é que se fez
ouvir o sino do portão. Confrangido com o silêncio dominante, o rapaz avançou
lentamente. Augusto fitava-o com desdém enquanto atravessava o terreiro: de
estatura alta, o rapaz tinha a pele branca e tez vermelha no cimo das bochechas;
o cabelo era negro e os olhos, escuros como breu e bastante juntos, tal como as
sobrancelhas, que se uniam. Calçava chuteiras Kipsta e vestia-se com jeans rotos, uma t-shirt dos Tokyo Hotel e um lenço preto e branco que lembrava aquele
palestiniano, cujo nome não me lembro... Pois sim, o Yasser Arafat.
- Boa tarde, venho em boa hora?
- Sim... Está disposto a ajudar-me enquanto estiver doente?
- Pode ser. Quanto me está disposto a pagar?
- Trezentos líquidos, já sem descontos. Ou prefere recibo verde?
- O que é isso? Sim, trezentos soa bem.
- Perfeito. Então pode começar por preparar uma canja. Vá à aldeia se
precisar de comprar víveres. Já agora, como se chama?
- Anselmo. Na aldeia sou conhecido por Pantagruel. Pois sim, vou já lá.
Entretanto quer que lhe faça um chá?
- Sim, hortelã. Pode por Rapsódia Húngara a tocar entretanto. Sabe como se
põe um disco...
- Pois claro, era eu que mixava o som na aparelhagem das festas da aldeia!
Augusto deliciava-se com a
delicadeza do gosto do chá e as nuances do som de Brahms enquanto Pantagruel
descia à aldeia. Chegado ao Café Central, fizeram-lhe as honras da casa com uma
pratada de tremoços. O senhor Luciano bombardeou-o com perguntas de cultura
geral, tais como quem era o Augusto, que fazia ele na vida, se era casado, se
era pirómano ou larilas, que queria ele da aldeia e da serra. Pantagruel não se
descosia, não só por ignorância, mas também porque as músicas que ouvira
enquanto trabalhava não lhe saíam da cabeça:
- Ó sô Luciano, ouvi umas cenas mesmo brutais! Tem aí computador com o
iutube?
- Veja lá o que põe. Pancadaria herege e diabólica aqui não!
- Nada disso. Vou por aquilo que o Augusto ouviu lá em cima. Ele até me disse
o que era, eram os três bês da música. Ahh, péra, não me lembro... Baque, Betôven
e Brámes, ou lá o que era...
- Mete lá que é para a gente ver, disse o senhor Fausto, que entrava no café
vindo da monda.
Pelas colunas começou a soar a
oitava sinfonia. A estupefacção foi geral:
- Ó filho, baixa aí o som das Tardes da Júlia, que isto é melhor que televisão! - disse o senhor Luciano. Pasmado, o Fausto exclamou:
- É incrível, parecem muitos ranchos a tocar ao mesmo tempo! O Betóve é um
génio, tem de actuar cá no ano que vem!
Pantagruel já ganhara o dia.
Deslumbrara a aldeia com músicas até então desconhecidas. Porém, o tempo
passara depressa e a noite caía. Augusto esperava-o no cimo da Serra, ansioso
pelo fim do jejum.
- Tenho de subir, Luciano. E depressa. Sabes como é que faço canja? O que
devo comprar?
- Epa, só tens de comprar frango ou galinha e umas massas. Cozes tudo e
depois até podes temperar.
- Muito bem, compro então a carne e as massas - disse Pantagruel, temendo
que a estreia culinária pudesse não correr de feição.
Perdoem-nos, caros leitores, que tenhamos a necessidade de partilhar a nossa incontinência verbal em domínios públicos. É a moda! Que se há de fazer?
26.4.12
19.4.12
Isolamento I
CRIIIIIIIIIIIIIIIIICK
CRIIIIIIIIIIIIIIIIICK
CRIIIIIIIIIIIIIIIIIICK
tatatatatatatat ………………………………….
WuiIuuuu
………………………. Computer Connected ……………………
Log in: Augusto.Freitas@campo.pt
Password: ●●●●●●●●
**PLIM**
Ana
do Ó diz:
Não acredito que te mudaste mesmo
para o campo! A sério que não sou capaz de perceber porque haveria alguém de se
mudar para o meio de nenhures. Pelo que me mostraste a casa nem sequer é perto da
aldeia. E não há nada a que eu chame cidade num raio de 300km…
Augusto.Freitas diz:
Já te disse que preciso de
sossego. Estava farto de viver aí. Demasiada gente. Demasiado barulho.
Demasiada pressa. E depois aqui tenho net. Está bem que é mais primitiva que a
roda, ligação telefónica, mas mantém-me ligado a tudo. Só não tenho a pressão
de viver na cidade.
Ana do Ó diz:
Nem o contacto. Ou tencionas
levar as pequenas campónias da Merdaleja
à ópera? É que, mesmo que quisesses e elas não ficassem a olhar para ti como
suínos vias-te e desejavas-te para encontrar um teatro municipal, quanto mais
uma ópera…
Augusto.Freitas diz:
Sabes bem raramente vou à ópera, prefiro
o cinema. E não custa nada sacar os filmes que quero ver e vê-los na televisão.
Vá, admite. Na verdade estás fula por nem a ti eu te convidar para vires passar
um fim-de-semana. Mas já te disse, preciso da calma. E repito, não estamos
isolados, podemos falar sempre que quisermos, aqui em cima tenho rede. E quero
saber tudo o que se passar por aí…
Ana do Ó diz:
Muito engraçado… Mas agora tenho
que ir, combinei com o Mário ir àquele restaurante novo, junto ao rio. Beijos
Augusto.Freitas diz:
Ok. Depois conta como foi. Hasta
Ana do Ó abandonou a
conversação. *Clique*
Augusto olhava
para a paisagem enquanto fechava o chat. Através da janela da secretária via-se
um estreito vale que um rio embelezava. Lá em baixo, junto às margens
lânguidas, estava a pequena aldeia. Não teria mais de vinte habitantes e estava
completamente isolada do frenesi da vida contemporânea. Augusto gostava do campo que o rodeava, todos
os dias observava as pessoas da aldeia nas suas vidas pacatas, conversando e
trabalhando, mas não se identificava particularmente com elas. Ele gostava das
comodidades das grandes metrópoles, do florescimento do acaso e da oferta de
escolhas. Mas era também um homem recatado e, de um estranho modo, bucólico. Ultimamente
a vida na grande cidade tornava-se insuportável, muito movimento, muita acção,
demasiada conversa, demasiada impulsividade. Quando fugira do burburinho da
cidade não tencionava desligar-se desse mundo, antes procurava uma nova forma
de se relacionar com ele. Uma forma em que a cultura de uma grande metrópole
estivesse pressente, nem no entanto ser forçado a agir e falar sem pensar.
Felizmente a internet, mesmo uma fraca ligação telefónica, permitia isso mesmo.
Proximidade apesar da distância física, o melhor de dois mundos.
Quando
arranjara aquele chalé tivera o cuidado de escolher um que não ficasse
demasiado próximo de nenhuma povoação, para não criar os maus hábitos da
província, mas também que não fosse tão distante que se sentisse só no meio do
campo. A localização daquele era perfeita! No cume do monte tinha uma vista
soberba sobre as redondezas e a aldeia mais próxima encontrava-se longe o
suficiente ara que as suas casas se misturassem com a paisagem. Os habitantes eram
para ele como indígenas de um mundo esquecido, isolados na sua tacanhez. Não
sentia qualquer afinidade com eles. Eram pessoas que não liam Keates nem ouviam
Debussy, para eles o símbolo máximo da cultura eram os programas da tarde que
passavam na televisão. Bergman não conheciam, teatro e revista era para eles
uma e a mesma coisa, e achavam que ópera era o que berravam nos campos. Numa
palavra: provincianos! A sua relação com eles resumia-se à observação dos seus
hábitos, do cimo do monte, e as compras pontuais que tinha que fazer porque
gostava de agricultura biológica.
das Séries
Os
conspiradores deste blog andam a pecar por falta de estímulo. O caro leitor
terá que nos perdoar. Em nossa defesa argumentamos que por vezes se torna tão
difícil encontrar temas para dissertar como é, outras vezes, difícil escolher
de entre tantos. Seja como for considerámos a situação incomportável e
decidimos tornarmo-nos activos.
Como
dissemos é difícil por vezes dissertar simplesmente sobre algo. E é já vontade
antiga dos autores redigir uma saga à laia de história. No entanto pareceu-nos
que começar com tal empreendimento sem treino seria a receita para a desgraça.
Vamos portanto devagar.
Propomos
ao leitor um pequeno conto, em seis partes, em que cada um dos conspiradores
participará com um máximo de 1000 palavras por intervenção e o limite máximo
para uma continuação será de uma semana, ao estilo de qualquer série
televisiva. Não haverá guião ou limites para a imaginação, apenas se exige
continuidade e coerência com o que já foi escrito e limitaremos a criatividade
a um tema geral.
Desejamos
que o leitor se divirta tanto quanto nós esperamos divertir-nos.
7.4.12
das Palavras
As
palavras são algo de traiçoeiro. Não que elas próprias congeminem dolos ou nos
enganem com sentidos dúbios! As palavras são algo de traiçoeiro pela importância
que lhes damos. Dependemos delas para nos expressarmos. Quem não diz que está
cansado, ou que está dorido? Mas a verdade é que nem sempre as palavras nos
ajudam.
No
nosso quotidiano as palavras são algo de útil. Com três nomes: Comida Prato
Mesa, conseguíamos transmitir a ideia de que a comida foi servida. Felizmente,
como todas as coisas úteis criadas pelo Homem, podemos embelezar o nosso
discurso e dizer: A comida foi servida no prato de Limoges, na mesa da sala de
Jantar. Há até quem, com alguma arte e engenho, consiga transmitir algo de extremamente
valioso: pensamentos, mas não creio incluir-me nesse grupo. Apesar disto
atrevo-me a dizer que há situações em que nenhuma palavra pois pode salvar. Expressar
o desejo de beijar a nossa amada nunca será tão eficaz como fazê-lo. No entanto
o poder das palavras é tal que muitos caem nessa tentação, criando assim a
ideia de que as palavras podem substituir as acções e, pior!, que as palavras
resolvem tudo.
Não
é verdade! Quando sentimos a dor em nós, e não me refiro exclusivamente à dor física,
não é falando sobre ela que passa. Substituir por palavras algo que nos enche a
alma de forma avassaladora apenas distrai e ajuda os outros a compadecer-se de
nós. Mas como é possível arranjar palavras para confortar um pai que perdeu o
filho? Como partilhar com outros o nosso amor por alguém? São estas as
situações em que as palavras nada podem. Como posso eu sentir verdadeiramente
se me distraio a descrevê-lo a todos os que me rodeiam? Como descrever algo de
que fujo? É impossível. Diz-se que as palavras são vento. Mas o vendo, quando
se espalha demasiado, perde a força e torna-se numa brisa suave. E como
descrever uma tempestade recorrendo apenas à suave brisa que nos aquece as
faces?
As
palavras nada podem contra a força imensa do que nos move, são pálidos quadros
feitos para exibição num ambiente acomodado. No entanto muitos quadros há que
conseguem pôr os nossos corações a palpitar e movem milhões. É esta a força das
palavras, é nisto que são traiçoeiras. As palavras são traiçoeiras, revestem-se
de uma importância que não têm e tentam tornar-se incontestáveis.
É perante isto que o silêncio ganha
significado, pela assustadora presença do indiscritível.
19.3.12
Thumbs up!
Confesso que tenho sido assediado: onde quer que me dirija, no mundo real, no mundo virtual ou no universo paralelo, há sempre um polegar azul que acena. E, claro está, é difícil resistir ao seu poder. Fazer like tornou-se num ritual, ainda que seja sobre um estado de espírito, um momento confessional, um "tive insónias" ou "está numa relação". Haverá mesmo quem se disponha a dessacralizar a vida privada para merecer uns likes! Pois bem, tal como o cavaleiro das cruzadas era capaz de morrer para matar um sarraceno, hoje tudo se faz por um polegar. É talvez a religião que mais crentes tem gerado nos últimos tempos. Pelejar o mouro? Jamé, ganha gostos e terás glória!
Que o polegar é poderoso, todos sabemos. Já vi corporações inteiras a ombrearem-se por gostos, usando pretextos como almoços e gelados à borla... Mas este fetiche também gera medo e calafrios, algo que já Maquiavel imaginava. Não era este autor que defendia que, se tivermos de escolher entre sermos temidos ou amados, devemos querer ser temidos? Pois assim é com o polegar. Quantas empresas retiram comentários considerados foleiros, não fosse o polegar beliscar a imagem. Depois vão-se queixar de censura, esses sacanas... E já que se toca neste assunto, o polegar arroga-se de conseguir derrubar ditadores e caçar infiéis. É mesmo assim; o nosso amigo Mark Zuckerberg até foi premiado (pasme-se) pelo FBI na condição de inventor do polegar, por dar informações sobre o paradeiro de uns rebeldes na Líbia, que terão sido chacinados logo a seguir.
O polegar é poderoso e traz sangue. Consta que se pode matar uma pessoa com um polegar. Ou muitos. Ou será que já ninguém se lembra do wrestling da antiguidade? Ao menos os romanos eram evoluídos, uma vez que conseguiam manifestar-se ao ponto de não gostar do comportamento de um escravo perante as feras. Mas o nosso caro Zuckerberg não nos dá essa liberdade. Não surpreende, pois, que o polegar seja sarcástico, numa degeneração não planeada. Senão veja-se: quando alguém partilha um vídeo sobre a fome no Sudão ou aos prodígios vocais e coreográficos do Telmo Miranda e queremos mostrar atenção, ou gostamos, ou comentamos. É claro que todos gostamos da imagem de satélite com o oceano Ártico sem gelo estival, com os carneirinhos das ondas como único branco. Gostamos não gostando, penso eu de que...
Last but not the least, o polegar é o culminar do criacionismo, numa forma de "Gostai e multiplicai-vos" e, simultaneamente, do evolucionismo. Senão veja-se: o polegar é o dedo (ou quirodáctilo) mais importante dos hominídeos – é completamente distinto dos outros dedos, o que significou uma aquisição evolutiva que permitiu a estes animais a utilização de instrumentos. O dedo também ajuda à defesa ou à modificação do meio ambiente (Edgar Morin, em "Paradigma Perdido" refere-se à dialéctica "pé - mão - cérebro").
O polegar faz obra, mas será que o seu sucedâneo virtual muda o meio ambiente? Ou, reformulando a pergunta, o que farão 7.000.000.000 likes? Será que, enquanto gosto do vídeo do Kony, no meu sofá, estarei a interferir na causa? Sim, é uma forma de activismo simples e apelativa. Apenas requer a quantidade de calorias que nos permitem levantar o dedo e premir o botão esquerdo do rato (para quem usa Windows). Like, and share, on and on...
O polegar é poderoso e mortífero, temido e respeitado, honesto e sarcástico. Thumbs up, gostem e serão salvos!
5.3.12
Teclado e companhia!
Caros
leitores, HOJE escrevo não pelo simples prazer mas pela necessidade de estrear
o meu teclado novo! É verdade, talvez seja um maluquinho mas os teclados não
são todos iguais para mim. Além disto gosto de ouvir o bater das teclas aquele
tick tick tick e o tack do espaço. O que me chama mais a atenção no espaço é a
sua forma… Não bastava ser um pouco mais pequena, ou melhor ainda, de metade do
tamanho?
Não bastava
ser um pouco mais pequena, ou melhor ainda, de metade do tamanho? O tamanho do Enter
é mais compreensível pois acerto nele com o indicador e como tenho pouca
pontaria com esse dedo, acaba por compensar o tamanho de modo que não falho. É
capaz de vos surgir a seguinte questão: “Como consegues tu falhar tanto com o
indicador se é da mão direita, supostamente a dominante?” É que uso só o
indicador da mão direita para escrever ao passo que uso todos os dedos da mão
esquerda. É estranho sim! Desde cedo que gosto muito de jogos de guerra os
quais exigem que o utilizador tenha um certa agilidade com os dedos da mão
esquerda para poder mover o boneco. Deste modo acontece-me com muita frequência
digitar mal as palavras. Como por exemplo: “apra” em vez de “para”. Tendo mais
destreza com a mão esquerda acabo por chegar tarde à tecla que pretendo atingir
com a mão direita o que resulta nestas gafes. Se usasse todos os dedinhos
disponíveis poderia escrever muito mais rapidamente e contentava mais os meus
ouvidos com o tick tick tick. Como se não bastasse esta minha má competência de
escrever com a mão direita, ainda uso o teclado com uma certa inclinação! Não
consigo compreender porque o uso assim. Não sei se é para dar mais jeito à mão
esquerda porque é esta que digita mais letras ou se é para ficar mais
confortável ao PC enquanto jogo. Ah! Lembrei-me… Era por causa das teclas de
atalho. Sim! Consigo fazer uma combinação maluca de teclas só com a mão
esquerda. Por esta altura hão-de estar a pensar que sou um grande geek. Já fui.
Aliás, agora subi no escalão. Sou um nerd! Antes nerd que geek :]
Cada coisa tem
as suas vantagens. Ora vejamos porquê! Por jogar imenso consegui ter muita
elasticidade nos dedos e assim consigo fazer acordes difíceis na viola. Porém
falta-me é a força para aguentar… Mas com prática tudo se consegue! Com o
passar do tempo fui conseguindo segura-los por mais tempo. Bom, para além desta
enorme vantagem consigo perceber melhor as outras pessoas que tentam comunicar
comigo (no computador é claro!). Como de vez em quando me engano a escrever
desenvolvi a capacidade de perceber as palavras mal escritas. Por mais que diga
às pessoas que não precisam de corrigir o que escrevem, insistem em corrigir
com medo de que eu não perceba. Não me irrita esta atitude porque até aprecio
essa disposição de corrigir o que está mal. O que me chateia são as muralhas de
texto que ficam diante dos meus olhos! Dá-me vontade de parar de ler e bocejar.
Chego ao ponto de ficar num estado de tédio conturbadíssimo se as muralhas
forem muitas. Por esta altura já deve ter percebido que sou uma pessoa
complicada. Mas engana-se! Eu apoio a máxima do “keep it simple”. Quanto menos
melhor, depende é do que estivermos a falar ^.-
26.2.12
da Simplicidade
Há uns dias,
durante o meu lanche aconteceu-me apanhar um programa no canal Odisseia que me
pareceu interessante. Não é o meu tipo de programa predilecto, gosto daqueles
que têm magníficos planos da vida animal, música bem escolhida e um narrador
com voz bem colocada, mas como não tinha muito apetite nem tempo fiquei a ver.
Já tinha apanhado um programa no estilo, embora nunca tenha visto um completo. Trata-se
de uma série de estudos antropológicos feitos por uma mulher ocidental que
durante um mês vai viver para tribos isoladas em África. É bastante fantasioso
uma vez que a antropóloga, suponho que seja essa a sua profissão, insiste em
tingir a pele do tom dos autóctones mas sem nunca alterar a tinta de cabelo, de
loiro desbotado para negro. É ideal para lanches de dez minutos.
Desta vez
apanhei um trecho em que ela comentava o sentimento de comunidade e união
partilhado pelas mulheres da tribo africana em estudo. Deduzi que fossem
poligâmicos e que estas mulheres fossem todas casadas com o mesmo homem. A
narradora falava de como esta situação inicialmente a chocara, tanto mais que
mal tinha chegado lhe quiseram arranjar marido, mas que agora compreendia
melhor. Parece que mal as raparigas se tornam núbeis são casadas e rapidamente
têm muitos filhos para criar. A sua vida gira em torno da manutenção da casa,
da cozinha e dos filhos, ajudando-se umas às outras sem brigas ou disputas.
Este facto admirou muito a narradora até ter compreendido que, de facto, elas
não se sentiam vazias nem tinham qualquer tipo de necessidade de afirmação. Ela
comentava que tinha entendido que estas mulheres, que vivem em total comunidade
e cujas necessidades não vão além daquelas que são “naturais”, sabiam que a
harmonia do seu dia-a-dia dependia dumas e doutras e, por isso, não perturbavam
a ordem com futilidades.
Simultaneamente
aparecia uma mulher, digo-o como expressão porque julgo que a rapariga não
teria mais do que dezassete anos, ela comentava que não compreendia porque é
que a Narradora, sendo uma mulher florida e com idade, não era casada e não
tinha filhos. Esta mulher considerava a ocidental infeliz por estar demasiado
preocupada com as acções. Explicava que ela queria perceber todos os costumes e
acções da tribo e replicá-los na perfeição mas que não era capaz de sentir como
elas. Sendo a indígena uma mulher de acção, logo ali explicou o plano que
congeminara para tentar explicar isto à narradora: uma prima estava prestes a
dar à luz, quando a criança nascesse levariam a ocidental a visitá-la.
Dito a feito,
ainda vi como a ocidental ficou embasbacada com o recém-nascido e perguntava ao
orgulhoso pai de oitenta e quatro anos se achava o filho mais parecido com ele
ou com a mulher. No dia seguinte a Narradora estava alterada e dizia que aquela
visita mudara a sua perspectiva de ver as coisas. Compreendera finalmente que
aquelas mulheres eram felizes por estarem completas, por não preencherem as
vidas delas com preocupações artificiais e necessidades fúteis. Tomara,
inclusive, uma resolução: ia ter filhos! Aparentemente a sua irmã estava
grávida, algures num país dito civilizado, e a narradora estava convencida de
que seria muito bom para elas se pudessem criar os filhos juntas e criar uma
comunidade como aquela que ela via ali, algures em África.
Não continuei
a ver o programa, o meu lanche tinha acabado. Mas fiquei a pensar sobre isto.
Não estaremos nós, os filhos da civilização ocidental, livres, iguais, ricos, a
enganarmo-nos para preencher o vazio que estes adjectivos causam? Seria de
supor que a igualdade e livre acesso aos bens de consumo, que a liberdade de
acção e uma educação cuidada deveria fez de nós seres mais felizes e completos
do que aqueles povos que em tempos escravizámos, por nos serem
inferiores? Será que estes direitos talvez nos sufoquem mais do que impelem e,
por eles, tenhamos necessidades que não são as verdadeiras Necessidades?
Fiquei
curioso…
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