Num mundo onde o tempo escasseia valorizo cada vez mais a capacidade de alguém suspender a sua visão quotidiana e colocar tudo em perspectiva. Cada vez mais vejo que o pensamento é toldado por questões práticas de Senso-Comum que o limitam a uma bengala na auto-estrada do pré-pensado. Não vejo ninguém valorizar o Belo por ser Belo antes preferindo explicações pseudo-intectuais para questões que devem ser encaradas numa perspectiva mais real e lógica.
Deixo-vos esta entrevista de Salvador Dali. Apesar de parecer muito grande aviso que os primeiros 55seg bastaram para me prender a todo o resto. É uma entrevista à moda antiga bem conduzida em que Dali fala de diversos aspectos da sua vida e obra.
Devo alertar os espectadores que será proferida uma quantidade extraordinária de afirmações aparentemente pouco coesas. No entanto parece-me curioso como alguém que se assume surrealista consegue pensar e agir de forma mais coerente do que muitos de nós... O seu pensamento não é regido pela habitual mistura de bom-senso, preconceito e ideal que nos tolda a todos. Pelo contrário Dali segue uma frieza idealista que não teme o resultado das suas conclusões analíticas e, como tal, não hesita em partilhar os seus resultados com o mundo. Dali usa a lógica pura, sem marcas, sem corrupção, e através dela molda todos os constrangimentos da lógica corriqueira transformando-os em Arte quando os expõe ao espectador. Talvez seja isso que faz dele um grande artista, essa capacidade única para captar aquilo que o nosso juízo comum não percebe e transmiti-lo de forma clara e e não impositiva.
A isto eu chamo um exercício de estilo. Dali despoja os ouvintes das suas considerações vulgares e embarca-nos num mundo de simbologia crua e imperativa.
Entervista a Salvador Dali, parte 1
Entrevista a Salvador Dali, parte 2
Entrevista a Salvador Dali. parte 3
Entrevista a Salvador Dali, parte 4
Entrevista a Salvador Dali, parte 5
Entrevista a Salvador Dali, parte 6
Entrevista a Salvador Dali, parte 7
Entrevista a Salvador Dali, parte 8
Perdoem-nos, caros leitores, que tenhamos a necessidade de partilhar a nossa incontinência verbal em domínios públicos. É a moda! Que se há de fazer?
21.9.12
1.9.12
Nordicamente falando
A cada dia que passa, descubro algo que me transcende
ou que, simplesmente, surpreende. Será normal viver-se numa cidade onde as
caixas de correio são abertas, ao alcance de todos? Porque haverá, na
universidade, de uma linha de atendimento para denúncias de discriminação ou
favorecimento de alunos? E que achar das igrejas protestantes onde as mulheres
casadas também dão missas? Há realmente algo diferente nestas paragens.
Vi, há dias, uma obra clássica de Rosselini: Stromboli,
de 1949. Karin e António apaixonam-se num campo de refugiados da Grande Guerra.
Ela é lituana (encarnada pela bela Ingrid Bergman), enquanto ele, de tez
morena, é um pescador da ilha de Stromboli, no Mediterrâneo. Decidem casar-se,
após o que ele a leva para casa.
Chegando a Stromboli, o cenário é desolador. A terra é árida e escura e as casas, da cor da terra, estão quase todas ao abandono. Podia ser o Algarve recém-ardido ou uma aldeia remota de Trás-os-montes. As ruas labirínticas estão desertas e as casas, toscamente acabadas, não oferecem qualquer conforto. Karin permanece em silêncio, tal é o choque, após o que diz que não conseguirá viver naquele lugar. António responde que não têm alternativa.
À medida que o tempo avança, tudo fica mais sombrio.
Karin, deprimida pela solidão, conta com o padre da aldeia para conversar.
Queixa-se das condições de vida, ao que ele responde que a vida é assim mesmo,
cheia de contratempos, pelo que temos de aguentar, rezar e ter fé na salvação.
Em casa, as discussões de casal aumentam de dia para dia, sendo motivadas por
questões simples como a decoração da casa: António ofende-se sempre que Karin
esconde as imagens de santos e os retratos de família. Perante a vizinhança,
que só pensa em emigrar, a situação torna-se cada vez mais difícil, pois a
beleza nórdica de Karin atrai a atenção dos homens e as esposas reagem
asperamente, acusando-a de soberba, vaidade e arrogância.
Karin sofre e não tem dinheiro nem condições para sair da ilha. Tenta surpreender o marido indo visita-lo ao trabalho, mas fica horrorizada com o espectáculo sanguinário que é a pesca ao atum.
A narrativa é arrastada e lenta, bem ao ritmo da Itália
sulista. Existe porém uma questão pendente: quem irá ceder.
Conseguirá Karen fugir ou adaptar-se à ilha, vivendo o amor da sua vida? Trata-se de um filme intemporal que versa sobre as disparidades entre
a Europa do Norte e do Sul, divididas por aquele muro indelével que são os
Alpes, que a Eurovisão, os Fundos Comunitários e
os nossos Erasmus difícilmente farão desaparecer.
29.8.12
dos Semáforos
Hoje enquanto
estava parado num vermelho na praça de Espanha vi um dos habituais vendedores
da revista Cais. Sem hesitar socorri-me do maior dom das cidades, o anonimato,
e fechei a janela. Não a fechei por ter medo de ser assaltado, nada tenho que
possa ser de alguma utilidade para um pedinte e se tivesse dar-lho-ia de bom grado.
Também não o fiz por achar que o senhor terá algum tipo de doenças facilmente
transmitidas pelo contacto visual desarmado, de resto tenho sempre óculos postos.
Fechei a janela porque estava a passar na rádio uma música de que gosto e
estava a cantar e não me apetecia ser incomodado ou ouvido por terceiros.
Mas enquanto via o primeiro carro rejeitar a
publicação senti um nó no estômago. Nesse carro tinham tido a frontalidade de
rejeitar a oferta, eu queria simplesmente não a ver. Que mundo é este em que
alguém prefere ficar sossegado a ouvir a sua música e ignora os necessitados
que lhe batem à porta? Que maravilha é esta que domina as cidades e que nos
torna tão indiferentes para com os outros? Lembrei-me que as cidades são as
pérolas da nossa civilização. Nelas a vida cresce e floresce, cria-se arte,
criam-se ideias. A Carta dos Direitos do Homem é, quanto a mim, um dos mais
belos expoentes da nossa civilização. Nela admite-se a igualdade entre todos os
Homens e respeita-se a vida. Como é então possível que eu, que sei tudo isto e
que gosto de me ver como criatura civilizada, fui capaz de recusar o contacto
com uma vida em troco de uma música que posso ouvir a qualquer momento?
E
como se deve sentir o senhor cuja vida depende daquelas poucas revistas que consegue
vender? Como será passar os dias junto a um semáforo, a respirar os escapes dos
milhares de automóveis que lhe recusam o sustento? Que tipo de sociedade
experimenta ele? Provavelmente apenas uma que não se preocupa com os direitos
dos prisioneiros de Guantánamo, mas não hesita em mostrar a sua indiferença, a
até nojo, por aqueles que não foram abençoados com um sustento.
Esta
comparação aterrou-me. Na verdade preocupo-me mais com a humanidade no trato
dos pecadores que com a humanidade no trato dos miseráveis! Mas como? Porque é
que a tortura naqueles que mataram ou destruíram me parece desumana e fechar a
janela do sustendo de um pobre me parece melhor do que perder a música?
Felizmente ficou verde e fui poupado ao culminar das minhas reflexões. Mas temo
que a verdade seja esta:
Nunca fui tão cruel ao carregar
num botão.
23.7.12
duma Proposta de Futuro
Ontem estava com o propósito fito de publicar aqui um mail que recebi há alguns anos. Embora fosse uma corrente o conteúdo deste e-mail pareceu-me importante demais para o deixar passar, por isso imprimi-o e tenho-o guardado como se duma carta se tratasse. Agora reproduzo-o na integra, apenas com algumas correcções:
«Carta escrita em 2070:
«Estamos no ano 2070, acabo de completar os 50, mas a minha aparência é de alguém com 85. Tenho sérios problemas renais porque bebo muito pouca água. Creio que me resta pouco tempo.
«Hoje sou uma das pessoas mais idosas desta sociedade. Recordo quando tinha 5 anos. tudo era muito diferente. Havia muitas árvores nos parques, as asas tinham bonitos jardins e eu podia desfrutarr de um banho de chuveiro de quase uma hora! Agora usamos toalhas embebidas em azeite mineral para limpar a pele. Lembro-me de como as mulheres mostravam a sua formosa cabeleira. Agora temos que rapar a cabeça para a manter limpa. Tantas vezes o meu pai lavava o carro com a mangueira, hoje os meus netos não acreditam que a água era usada dessa forma.
«Recordo que haia muitos anuncias que diziam CUIDE DA ÁGUA!, só que ninguém lhe ligava, pensávamos que a água jamais se acabaria! Mal sabiamos nós que em alguns anos todos os rios, barragens, lagos e até os mantos aquíferos estão irreversivelmente contaminados ou secos. Imensos desertos constituem a paisagem que nos rodeia por todos os lados.
«Quantas vezes a minha mãe me mandava beber água, era recomendado que uma dulto bebesse oito copos por dia, devia tê-los bebido, pois agora só posso beber meio...
«A roupa é descartável, o que aumenta grandemente a quantidade de lixo. Tivemos que tornar a usar fossas como no século passado porque as redes de esgotos não funcionam sem água.
«A aparência da população é horrorosa: corpos desfalecidos, enrugados pela desidratação, cheios de chagas na pela feitas pelos raios ultravioletas que já não são filtrados pela camada de ozono. As infecções gastrointestinais, enfermidades da pele e das vias urinárias são as principais causas de morte entre nós.
«A industria está paralisada e o desemprego é dramático. As fábricas dessalinizadoras são a principal fonte de emprego e pagam com água potável em vez do antigo salário. A água é tão valorizada que os assaltos por um bidão dela são comuns nas ruas desertas. A comida é 80% sintética, sem água ou vitaminas. Pela pela ressequida um jovem com vinte anos parece ter quarente!
«Os cientistas investigam, mas não há solução possivel! Não se pode fabricar água, o oxigénio também está degradado pela falta de árvores, o que diminuiu o coeficiente intelectual das novas gerações. Alterou-se a morfologia dos espermatozóides de muitos individuos, como consequencias há muitas crianças com insuficiencias, mutações e deformações.
«O próprio ar é tão raro que o governo nos cobra pelo que respiramos, cerca de 137m^3 por dia por habitante adulto. Aqueles que não podem pagar pelo ar são retirados das "zonas ventiladas", que estão dotadas de gigantescos pulmões mecânicos que funcionam a energia solar. O ar não é de boa mas pode-se respirar.
«Nalguns países retsam algumas manchas de vegetação com o seu respectivo rio. são fortemente guardadas pelo exército. A água tornou-se num verdadeiro tesouro, mais cobiçado que o ouro ou os diamantes. Infelizmente, onde vivo, não há árvores porque quase nunca chove, e quando chega a registar-se precipitação é de chuva ácida. As estações do ano têm sido severamente transformadas pelas experiências atómicas e pela industria contaminante do século XX,
«Quando os meus netos me pedem que lhes fale de quando era jovem descrevo o bonito que eram os bosques, falo-lhe da chuva na nossa cara, das árvores, dos nossos banhos agradaveis e de poder pescar nos rios e barragens, bedendo toda a água que quisesse. Como eramos todos saudaveis!
«Eles pergundam-me: Avõ! Porque é que se acabou a água?
«Então, sinto um nó na gargante. Não posso deixar de me sentir culpado. Pertenço à geração que destruiu o meio-ambiente simplesmente porque não demos atenção a tantos avisos! Agora os nossos filhos pagam um preço demasiado alto pela nossa leviandade. Sinceramente, creio que a vida na Terra já não será possivel dentro de muito pouco tempo, porque a nossa destruição do ambiente chegou a um ponto irreversivel.
«Como gostaria de voltar atrás e fazer com que toda a Humanidade compreendesse isto, quando ainda podíamos fazer algo para salvar o nosso planeta Terra!»
extraído da revista biográfica "Crónicas de los Tiempos" de Abril de 2002
22.7.12
das Grandes Esperanças
Hoje, quando chegava a casa do
meu primeiro dia de férias, contava em sentar-me e publicar aqui uma carta que
guardo há muito. No entanto os meus planos foram furados pelo próprio acaso,
que tantas vezes nos favorece com surpresas inesperadas.
A televisão estava ligada e por
ela passou uma imagem de me captou a atenção. Tratava-se de uma sala decorada
ao bom estilo ecléctico do século XIX embora num estado bastante decadente. Não
podia ser melhor, sentei-me a ver um filme cujo conteúdo e nome desconhecia por
completo. Embora não saiba ao certo porquê revelou-se uma excelente surpresa.
Não sei se pelo aspecto decadentista da mansão onde se passa alguma da acção se
o facto de algum modo de identificar com os personagens. De forma muito simples
a história trata da vida de um rapaz que desenhava particularmente bem e a sua
relação com uma bela e fria menina. Essa paixão fora plantada pela tia excêntrica
da menina que a preparava para ser uma femme fatale e usou o rapaz para esse
fim. A consequência disto foi que ambos desenvolveram um estranho amor do qual
ela se evadia mas que ele exprimia em toda a sua arte. Embora não haja enredo
por aí além, tem um final feliz, é de salientar alguma cenas de beleza inexprimível,
como aquela em que o artista atinge o auge de todos os sonhos e se apercebe que
nem assim conseguiu impedir o casamento da sua amada. Esta cena resulta num
dialogo com a tia excêntrica onde esta se mostra arruinada pelo seu próprio maquiavelismo.
Talvez o facto de Gwyneth Paltrow, uma actriz
que admiro imenso pela elegância desmesurada, ser a actriz no papel de mulher
fatal e de aparecer a posar para um retrato nua contribua também para ter
gostado tanto deste filme. Que mais não é do que uma revisitação do clássico
com o mesmo nome de Charles Dickens, pelo realizador Alfonso Cuarón . em todo o
caso penso que todos nós devemos lembrar-nos das nossas Grandes Esperanças
(Great Expectations) uma vez por outra.
6.7.12
Testemunho: o novo-riquismo ecológico e social
Adoro causas nobres, muito mais do que imaginas. Não sei se já te contei (nem todos precisam de saber) que sou uma pessoa de bem.
Já plantei uma árvore; esteja ela
viva ou morta, o que interessa é a intenção, até porque vi o presidente da câmara a
plantar a primeira, e mal seria se eu, como SIDAdão, não plantasse a minha.
Também já mandei aquela roupa (de
odores astringentes e cores folcloricamente berrantes e pindéricas) para os
putozinhos em África. Talvez eles apreciem, porque me ofende a vista e,
desde que vi as colecções Outono-Inverno na Vanity Fera, deixou de me servir. Nem sei porquê, a verdade é que eu nem
engordei.
A reciclaije tem em mim um grande adepto. Perguntei ao energúmeno do
lixo para onde ia o frasco de foie gras.
Ele ficou indeciso, coitado, e disse-me para ir ler o Manual. Agora ponho tudo
no sítio certo, até a Ignorância, que tem de ter sítio para onde ir. Mais
ainda: passei a comprar embalagens mais pequenas de sumos, champôs e cremes
para a pele: quanto mais coisas tiver e mais cheio e pesado estiver o saco, então
isso quer dizer que reciclo mais e tenho uma atitude mais proactivamente amiga
do ambiente. Pelo menos é o que os meus vizinhos vão pensar. E nem pensar em
arranjar coisas, que isso passou de moda.
É claro que já adoptei muita
coisa. Davam-me sempre uma t-shirt ou uma mascote. Essas guardo sempre. Também
me pediram para adoptar um cão, uma flor ou uma criança, mas isso ia ser uma
chatice, porque ia conspurcar a casa.
Adoro crianças. São todas umas
queridas. Quando sorriem ficam bem em qualquer fotografia, independentemente do
credo, côr ou religião. É por isso que, qualquer iniciativa que as envolva
conta com a minha ajuda. Principalmente se tiver Sorriso algures no seu nome. Crianças
tudo bem, mas não tenho jeito nenhum para dar apoio a idosos! Isso deve ser da
conta da Santa Casa da Misericórdia ou dos lares e centros de Dia, que são
imensos. Também não é preciso chegar ao ponto de pôr os "Velhos no
Velhão", como diziam os Gato Fedorento, num sketch genial feito em tempos. É claro que não! Mas compreendam-me:
eles só se queixam. Também não têm ideias de futuro. Prefiro respeitosamente
tratá-los por idosos em vez de velhos.
Finalmente, devo dizer que temos
de ser felizes e aproveitar todos os momentos como se fossem os últimos. E
torná-los especiais. E um momento é especial quanto mais caro for. A comida, claro está, não pode ter ossos, espinhas,
caroços, casca ou côdea. Quanto ao lazer, posso dar tacadas, mas tem de ser num
green, que esteja verde o ano inteiro, faça chuva ou faça seca. Nem que se sequem todos os rios de Marrocos. Andar
a pé só com bastão e com o patrocínio de uma marca de ténis mínimamente decente, porque os calos não fazem parte da vida.
Sou uma pessoa de gostos simples,
mas ainda assim deixo que me impinjam todo o tipo de objectos que, mais ou menos
úteis, dão-me todo o status de que preciso. Mesmo que correspondam a
desperdícios de recursos, porque ao menos assim a economia desenvolve. E espero não ficar cá para ver o mundo daqui a duas gerações.
12.6.12
do Ser e do Parecer
Hoje fui acusado de absentismo
perante este blog. Peço perdão por isso! Em minha defesa saliento que muitas
vezes é-me difícil conseguir a dedicação necessária para escrever uma reflexão.
A mesma pessoa argumentou que nós (conspiradores desta causa) tínhamos dado um
tom demasiado intelectual a este local. Senti nessa afirmação um leve tom de
censura, não pela escolha em si, mas pelo facto de esta implicar uma imagem de
nós próprios que pode não ser a mais verdadeira.
Isto levou a que o meu pensamento
caísse numa questão que lhe tem sido recorrente: Parecer Ser. Quando escrevo
algo neste sitio tenho o cuidado de apresentar os textos em Português correcto
(de preferência sem acordo) e de criar frases que reflictam bem os meus
pensamentos. No entanto todo o conteúdo do que escrevo é sempre uma reflexão
verdadeira sem pretensões de ostentar qualquer tipo de sobranceria intelectual.
Quando se afirma que estas reflexões não parecem ser genuínas fica implícito que
a pessoa que dou a conhecer não teria verdadeiramente estas reflexões no seu
quotidiano. Logo a pessoa que sou não é a que mostro aqui.
Mas, e aqui é que me parece estar
a parte interessante, se for o contrário? Porque não posso Parecer Ser um
estereótipo de pessoa e representar esse papel em sociedade e Ser uma pessoa
que não se identifica totalmente com esse estereótipo? Esta questão leva-me a
outra mais premente: eu sou o que sou, eu pareço o que sou ou eu sou o que
pareço? Em qual destes meandros das barreiras individuais reside a verdadeira
identidade? Começo a não saber. Acreditava que se pode parecer algo que não se
é sem dificuldade, no entanto noto que com o tempo esse limite esbate-se e a
personagem que Parece torna-se dominante no dia-a-dia, relegando a que É para
um plano tão secundário que se torna quase irrelevante.
Hoje acredito que é essencial nunca
relegar o Ser para um plano obscuro da existência. Devemos alimentar o Ser e
dar-lhe formas de se manifestar. O truque, parece-me, está em disfarça-lo no
Parecer, como forma de auto-protecção (para não dizer civilidade). Assim decidi
escrever esta pequena intervenção, como forma de expressar o meu Ser sem prejuízo
do Parecer que me é tão querido.
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